quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Palavras do outro lado do mundo

Ultimamente tenho-me sentido fascinado pela simplicidade e naturalidade da cultura africana. Grande parte dessa admiração tem a sua origem nas estórias contadas pelo escritor moçambicano Mia Couto, que nos consegue transportar para uma outra dimensão, onde as coisas parecem tão puras, onde a simples existência de luz, de terra, de água, e a possibilidade de partilhar esses tesouros com outros seres vivos, apresentam-se como felicidade absoluta.
Por estar a gostar imenso de passear pelas palavras "estoriadas" ( Mia Couto, mais do que escritor, é um inventador de palavras), gostaria de partilhar com o vocês, uma estória, escrita por Ondjaki, que gostei muito.
" As muitas visitas da Avó Catarina"
Na escuridão da varanda, esperando os pequenos ragos
de luz a que chamávamos de cinema bú*, a Madalena
dizia de vez enquando« a Avó Catarina já está aí...»
Assutados, criávamos em nós um suspense que caracterizava
as sessões de cinema bú. Sem ninguém saber, nem a própria
Madalena, mesmo ao nosso lado, a Avó Catarina estava de factl lá.
* cinema bu: se não houver falta de luz, se não houver uma varanda com arvoredo por detrás, se não houver um muro onde se sentem crianças criativas, se os carros não passarem provocando sombtras na parede da varanda...então, não há cinema bú.
" Dizem também que os mortos são melhores visitadores que os vivos. Talvez porque em vida visitar é coisa miúda, que se pode realizar a qualquer momento. Só que no isolamento da morte as coisas não são assim tão simples. As companhias escasseiam e nem sempre são escolhidas. Às vezes são impostas. Por isso é que os mortos, dizem, são melhores visitadores que os vivos.
A Avó Catarina ainda demorou um bocado para nos visitar. Parecia que se estava a acomodar ao novo mundo dela, ou que ainda não tinha vontade de visitar este mundo. Talvez fosse isso. Porque o amor deste mundo, tem duas facetas muito fortes: ou chama os mortos com vontade, ou afasta-os para sempre. Nunca ninguém deste lado chegou a falar nisso. Limitávamo-nos a deixá-la chegar, falar e voltar a partir. Tantas vezes que deixámos de achar anormais as suas visitas. Porque, na verdade, aquilo não era estranho. E alguém acha estranha uma presença quotidiana? Mesmo que seja de um morto. Se aparece todos os dias, passamos a tratá-lo e a encará-lo como mais uma presença de todos os nossos dias.
Às vezes também aparecia de tarde. Ainda estávamos a jogar às escondidas e lá vinha ela dar-nos uma dica, uma altura própria para correr, ou para estar quieto. Isso foi no princípio, lá está, para qeu não nos assustássemos com as suas visitas de morta. Ganhou-nos a confiança e depois foi aparecendo todos os dias. Já não era uma presença estranha. Se não aparecia, o que era raro, perguntávamos por ela como alguém que esperamos sempre que apareça. Às vezes punhámo-nos a gritar por ela. Depois a Avó Nhé ralhava connosco porque « não se chamam os mortos». Só que na hora da brincadeira e principalmente na hora de contar ou inventar estórias, sentiamos sempre a falta da Avó Catarina. Anos mais tarde descobrimos porquê que ela não aparecia nas alturas de contar estórias: seretamente, durante anos e anos, sussurrava a um ou a outro uma pequena estória para contar e ouvir. Era a Avó Catarina que as contava.
Um dia, depois de dormirmos a sesta, ou antes de a terminarmos, acordámos com os berros da Avó Nhé. Descemos, descalços, mal acordados, assustados com os gritos. « Assim a Avó escorregou na varanda.», alguém pôs a hipotese. « Não...» Disse outro mais previdente, «... é a Avo Catarina que esteve aí». Terminadas as escadas e as breves suposições, encontrámos a Avó Nhé no cadeirão da sala, não sei bem se a chorar ou se simplesmente a descontrolar-se. « Não pode ser» dizia, «não pode ser!» E vimo-la olhar para nós como quem olha para anjos salvadores. Aproximámo-nos dela e sentámo-nos no que restava de espaço no pequeno cadeirão. Aliás nunca percebi porquê que o chamavam de cadeirão...
« Ai meus netos...a Avó Catarina estava mesmo aqui ao meu lado..» disse com ar assombrado. Como se as nossas caras não mudassem no sentido em que ela esperava, e como se ela visse nos nosso olhos e nos nossos sorrisos uma cumplicidade de idade avançada, perguntou de maneira ingénua mas certeira : « Vocês já tinham visto a Avó Catarina por ai?...» Nós, criançadamente, rimo-nos devagarinho. Era como se ela nos perguntasse se já tinhamos visto o sol. « Mas depois de morrer, já a tinham visto?» perguntou, incredula. Criançadamente, em tom de primos que têm segredos em comum, voltámos a rir. Foi a mais velha que falou « A Avó Catarina aparece todos os dias..» disse com cara de quem não mente.
Vimos então, sem espanto, a Avó Catarina sentar-se na cadeira velha que tinha sido sua. A Avó Nhé quis começar a chorar de novo, mas vendo-nos todos ir ter com a Avá Catarina sem receio, e até mesmo com aquele ar de miudos que cumprimentam um mais velho que acaba de chegar, guardou o seu chorozinho para mais tarde. Quando ia começar uma conversa que a Avó Catarina não queria ter, a mesma conversa de sempre, aquela que os mais velhos gostam de ter com os mortos, cheia de perguntas que os mortos não podem responder, a Avó Catarina cortou-lhe a fala levantando-se e dizendo « Vou lá acima..acho que deixei a janela aberta...»
A Avó Catarina continuava psicologicamente intacta. Tão vivente de dois mundos como sempre tinha sido em vida. A mania das janelas e portas abertas ou fechadas, não tinha sido apaziguada pelos ventos da morte. Pelo contrário. Agora podia subir e descer quantas vezes quisesse sem sofrer as moléstias do cansaço. Muitas vezes, enquanto contava estórias através de um de nós, viamo-nos atrapalhados quando ela sumia por instantespara ir fechar alguma janela. Era nessas alturas que as estórias perdiam algum nexo pois esse nexo tinha que ser inventado na ausência do murmúrio da Avó.
Mas a Avó Nhé logo se habituou. Conversava connosco sobre tais visitas contínuas e percebemos, hoje, que aquilo não passava de uma curiosidade irresistivel, da sua parte, de saber tudo o que a Avó Catarina nos contava. Coisas, disse ela mais tarde, que nunca lhe tinha contado. Sentia-se um pouco magoada por saber de coisas tão importantes que ela, Avó Catarina, nos contava e que nunca lhe tinha dado a conhecer. Sem perceber, a Avó Nhé caiu na armadilha da sua irmã: nós os miudos, os que julgávamos compreender todas as estórias que a Avó Catarina contava, erámos os seus intermediários para com esse mundo. Embora ela também visitasse a Avó Nhé de vez em quando, era a nós que ela tinha total acesso. Era em nós que ela podia gravar coisas. Estórias. Dizeres. Verdades. Inacreditáveis verdades, até para nós, que diariamente conversávamos com uma Avó morta!
Inevitavelmente, fomos crescendo. Uns, os primeiros, mais à frente que outros, deixaram simplesmente de acreditar na Avó Catarina, nas suas estórias, em tudo o que tiham gravado na memória. À medida que iam crescendo, os mais velhos iam sistematicamente duvidando de tudo o que sabiam, o que tinham visto, escutado, vivido. Tal como a Avó Nhé se esqueceu de tudo o que estava ligado à Avó Catarina, até porque esta deixou, com o tempo, de ir aparecendo, também nós as crianças, com o tempo, deixámos de vê-la. Eu fui o último a estar com ela.
Via dolorosamente que os primos já não a viam. Já não criam nem conseguiam crer na sua presença de todos os dias. Tal como a Avó Nhé, cresceram e deixaram de estar com ela. Cortaram-lhe o acesso. Anos antes, aproveitando-se de nosso poder de contágio, a Avó Catarina visitou durante meses a sua irmã - a Avó Nhé. Esse período começou com o doa em que descemos as escadas quando ouvimos o berro da Avó Nhé. Despois, a sua presença voltou a ser um exclusivo nosso, das crianças, dos primos, dos netos. Puco antes da prima mais velha deixar de acreditar na Avó Catarina, vivemos um período de riqueza da tradição oral. Diariamente, abdicando dos seus intermediários provisórios, ou seja, nós próprios, a Avó Catarina contou-nos ( em directo) estórias magnificas de um mundo que está tão perto de nós no dia - a - dia, que nem chegamos a vê-lo. Ela dividiu as nossas memórias, preparou-nos um a um, para anos mais tarde cada um de nós se lembrar da parte que lhe coubesse. Foram tempos de intensa passagem de testemunhos vivenciais que a Avó Catarina não permitia que o tempo engolisse. Defendendo-se como podia dessas mordidelas da morte, cultivou então nas nossas memorias as mais belas, as mais puras, as mais típicas estórias das gentes e dos mundos que ela tinha conhecido. Verdadeiramente empenhada em enganar a morte, esqueceu-se de nos preparar para enfrentar o tempo e a idade. Foram essencialmente eles que nos levaram a maior parte dos incríveis mundos que a Avó Catarina nos tinha entregado.
Quando a prima mais velha deixou de ser criança, arrastando consigo os seguintes primos que inevitavelmente se dirigiam para a frente também, eu fiquei, por pouco tempo, esquecido do comboio dos adultos. Foi quando a Avó Catarina, gasta, cansada, se lembrou dos seus inimigos mais fortes: tempo e a (minha) idade. Impingiu-me então à toda força, mundos e mundos de estórias que não cabiam na minha cabecinha. Aliás, era pouco provável que coubessem, pois o meu caminho também já estava minado pelos meus primos. Já não me era permitido falar com ou da Avó Catarina, pois já mais ninguém podia estar com ela. Deu-se então uma enorme batalha: por um lado, a família dos adultos que me queria arrastar para o mundo deles. Por outro, a metafórmica criatividade da Avó Catarina que, não me querendo reter na infância, precisava apenas de conversar um pouco de infância na minha mente para que, no terreno fértil das mentes infantis, pudesse palntar e ver brotar os mundos que ela pretendia negar à morte.
Só porque eram muitos mais, os adultos venceram. Numa despedida dolorosa, vi nas sombras escuras da varanda , a Avó Catarina contar-me as últimas estórias. Sinti-a minar profundamente a minha memória. Gastar, naquele momento último, todas as sias forças para enterrar profundamente recordações que nem a idade nem o tempo nem os adultos me poderiam arrancar: precisamente estas.
Estávamos sentados na varanda a ver cinema bu. Era o cinema mais barato e mais imaginário que conheciamos. Acontecia quando faltava luz. Íamos para a varanda e virávamo-nos para a parede. De longe, os carros que passavam injectavam na noite o poder luminoso dos seus faróis. Esses jactos de luz partiam do carro, passavam pelo arvoredo do jardim da nossa casa e projectavam sombras na parede. Essas sombras era a alma do cinema bú. A interpretação era nossa. Foi nesse cinema barato, carente de muita imaginação, que vi pela última vez a Avó Catarina. Ainda disse qualquer coisa aos outros, mas estavam demasiadamente entretidos com um filme de Bang Bang.
Já sem sermos crianças, quando por vezes na diversidade da vida uma parede, um carro, e algumas sombras provocam um momento de cinema bú, todos nós, primos, as crianças, os netos, encontramo-nos com a Avó Catarina. Ocorre então uma coisa engraçada: apercebemo-nos de que ela ainda tem o poder de nos contar estórias. Nós é que temos a mania de chamar a essas estórias, cinema bú."
"Momentos de Aqui: Contos"

domingo, 20 de junho de 2010

Metallica "Dead Magnetic Tour" 19 Maio





O meu olhar prendia-se num manual que partilhava a nossa atenção, enquanto o constante balbuciar de conversas preenchia o habitáculo da camioneta que nos transportava para Lisboa. Enquanto falávamos sobre cultura cinéfila, meu irmão, sentado no outro lado do corredor que nos dividia, ouvia música com os headphones e, absorvido, jogava o seu Nintendo DS.



Entre os breves momentos que desviava o atento olhar do teu rosto alegre, minha atenção recaía na paisagem árida que se desenhava no exterior. Composta por extensos prados amarelados, o sol reflectia, em espaços regulares, nas folhas verdes que se pintavam de forma viva, que se destacavam por entre os sopés das montanhas, e desfiladeiros que se estendia ao longo da estrada.



Talvez pela expectativa que construíra, ou então, pela companhia, o sentimento de plenitude , de conforto e felicidade apaziguadora apoderara-se de mim, e o calor abrasador e sufocante que se fazia sentir lá fora, inflamava ainda mais, o meu calmo coração, enquanto o ar condicionado projectando correntes de quietude, moderava a chama de ansiedade que se formava em cada um dos rostos.



A viagem demorava-se nas horas, mas encurtava-nos os momentos de pura felicidade partilhada, e quando os estômagos já não suportavam, fizemos a 1º paragem para almoçarmos. Sob um calor seco, sem se sentir a presença do vento, ocupamos uma mesinha de pedra, e com a habilidade que o momento nos permitia, retiramos comes e bebes das lancheiras, e protegidos do calor por uma cobertura de rede, regalamo-nos com um simples almoço, que nos soube a banquete, ao lado de um grupo de rapazes que partilhavam do mesmo momento.



Nesse instante, fui novamente arrebatado pelo mesmo sentimento de conforto e bem-estar, que se tinha solapado durante a viagem, quando a tua cabeça descansava no meu peito. A simplicidade com que se estabeleciam relações, a forma sincera e transparente com que trocavas palavras com o meu irmão (até então era te desconhecido), a forma despreocupada com que te borravas com o sumo da laranja, que vertia dos cantos da boca, tudo isso, fez-me sentir um prazer reconfortante de felicidade, possivelmente um dos prazeres mais simples e ingénuos que alguma vez tivera.



Depois de acomodada a barriga, fomos tomar um merecido café ao bar da estação de serviço, enquanto esperávamos que toda a gente terminasse de almoçar, de fumar os seus cigarros e de entrarmos na carrinha para continuarmos a nossa viagem.



De seguida a viagem tornou-se mais calma, já com o almoço na “pança” , e a sua habitual consequente moleza que tomava posse dos corpos, embora, todos, com uma única excepção, não se conseguiam desfazer da sofreguidão por que passavam.



E assim, neste cenário, continuamos a nossa partilha de momentos, enquanto de modo sempre curioso e atento, desfolhávamos cineastas, realizados e actores de filmes de outras décadas. Com clarividência e convicção inabaláveis nomeavas-me as figuras que mais se destacavam, alegando o seu perfil astral, ao passo que eu apontava os filmes da minha preferência. Quando as estrela cinematográficas já não satisfaziam o deleite da conversação, optamos por nos deixar acompanhar pela musica, e partilhando os mesmos headphones, ouvíamos Metallica, um de encontro ao outro, abraçando-nos para encurtar a distancia que nos afastava do palco dessa noite que iria levar-te ao êxtase.



Quando a camioneta perpassava Leiria, a emoção varonil fazia-se sentir, de forma contagiante, pelo que o pessoal que anteriormente se encontrava a dormitar, achava-se agora completamente desperto, e enlevado no entusiasmo, conversavam distraidamente com as mentes concentradas no que viria a passar-se em palco.



Finalmente, podemos acordar as pernas entorpecidas pela longa viagem que deixamos para trás, e sentir os ares da “Mouraria”, quando a camioneta parou no cais do oriente, numa estação de camionagem. Eram 17:30 e atravessávamos a rua adjacente ao Centro Comercial Vasco da Gama em direcção ao Pavilhão Atlântico. Apetecia-me descontrair e descansar um pouco da fatigante viagem, aproveitar para passear entre as pessoas e absorver a agitação que se desenrolava junta ao Tejo. No entanto, mal eu e o meu irmão nos sentamos num dos banquinhos de pedra que se perfilavam em toda a extensão da avenida, resguardada por amplas copas de árvores, tu, possuída pela tua habitual inquietude, e o receio ardente de deixares escapar o espaço entre o palco e o sítio que ocuparíamos, tentavas apressar-nos para uma das filas que serpenteavam até às várias entradas do pavilhão. Como de vagar se vai ao longe, e com pressas se fazem desastres, decidi aproveitar os poucos instantes de sol que ainda nos restava para, na companhia do meu irmão, passear um pouco, e eventualmente comprar alguma coisa para mastigar mais tarde. Não tinham passado 10 minutos, quando, ainda sentado numa retrete de uma da casa de banho do Vasco da Gama, reparo que tenho 2 chamadas não atendidas, e 5 mensagens por ler. Como foste germinada com os “Colhões do Diabo”, e a paciência não faz parte integrante do cardápio das tuas virtudes, já me bombardeavas com mensagens saudosas heheh, não, eram mesmo mensagens para me alertar da pressa que deveríamos ter em chegar junto da fila.



Depois de, graças à tua impaciência e intemperança, ter que me desfazer de um saco cheio de fruta (tua), uma vez que não se podia levar nada bebível e comestível para o interior do recinto, entramos na escuridão e abafo, eram apenas 18, e os raios de sol ainda reflectiam esplendorosamente na superfície verde calma do Tejo.






No interior encontramos grande parte dos fans aglomerados em torno do palco, situado no centro do recinto, que reservava firmemente o lugar mais próximo possível dos seus ídolos. Alguns holofotes suspensos sobre o palco emitiam feixes de luzes fortes, que contrastavam o ar escuro e denso, entrecortando espaços de extrema nitidez e claridade, onde se podia distinguir as faces humanas, e intervalos em que a escuridão tomava posse do desenho humano, não me permitindo vislumbrar mais do que vultos. A minha atenção foi atraída para o aparato que se pendia sob o palco, cinco caixões aparentemente revestidos de metal, desprendiam-se do tecto através de finos e imperceptíveis cabos. Caixão esse figura da capa do ultimo álbum dos Metallica, “Death Magnetic”.



As pessoas iam entrando no pavilhão, e a pequena multidão de fans que se acomodavam à volta do palco, crescia ininterruptamente dando lugar a uma massa comum, única e coesa de pessoas muito diferentes. Acompanhadas pela sua cara metade, ou então no seio de amigos, conversando, ora de pé, ora sentadas no chão, fumando cigarros escondidos, ou vertendo a bela da loira, as pessoas não arredavam pé do lugar que tanto tinham ansiado encontrar.



Os dígitos do relógio desenhavam 19:30 quando no palco entrou a primeira banda da noite, um grupo Irlandês cujo nome nunca cheguei a saber, e , tendo em conta a sua performance, não estou interessado em descobrir. Da mesma opinião, partilhava certamente maior parte das pessoas, pois palavras de gozo eram despejadas para o palco, assim como risos e gritos abafados de ironia.



Nessa altura, quando olhei para trás, apenas consegui ver carreiras de rostos virados na mesma direcção, e pensei em quão expectantes estariam, e em que poderiam estar a pensar. Tu estavas na eminência graciosa de algo culminante e belo, dos teus olhos castanhos soltava-se um brilho subtil, que era acompanhado pelo tartamudear exaltado das palavras que libertavas. O meu irmão ocultava o mesmo sentimento de felicidade por debaixo de uma expressão mais calma e serena, no entanto, o seu olhar, não concordante, atraiçoava-o deixando escapar um leve sorriso.





Na passagem entre as actuações da primeira e segunda banda, as pessoas aproveitavam para trocar experiencias, ideias e opiniões acerca dos seus idolos, que estavam prestes a marcar presença no palco dos seus sonhos. Enquanto a segunda banda, que se veio a revelar bem mais interessante que a anterior, não dava graças da sua alma, entretinha-me a observar com mais cuidado toda a ornamentação do espectáculo. Além dos caixões colossais, vários barões metálicos estendiam-se sobre o centro do palco, aos quais estavam fixos painéis com diferentes focos de luz. Sobre o palco encontravam-se vários instrumentos, como uma bateria perto de um dos extremos, algo bastante grande era encoberto por uma cobertura escura, e microfones com suporte alto, fazendo lembrar os utilizados em décadas passadas, perfilavam-se em torno do palco circular.



Aproximava-se do momento que tanto se ansiava, as pessoas já não conseguiam manter a calma, e o som premonitório das guitarradas desconhecidas despertava os ecos distantes da bateria tão conhecida por todos. Aplaudia-se, na desordem de sentimentos e emoções, o vazio que os músicos preenchiam ainda na ausência dos ídolos, e como se de um aquecimento ou preparação se tratasse, os fans esticavam os braços para o céu, gesticulando significados, qual horda que saúda o seu soberano. Nesse instante, senti-me sozinho, isolado no meio de muitas pessoas, por não compartilhar da mesma motivação, paixão e fervor. Todos aqueles braços içados em uníssono, sobre as cabeças que se inclinavam para o mesmo sitio, todos os gritos vociferados, e as palpitações que se propagavam de forma irregular, transportaram-me para uma realidade num outro plano.



Finalmente, após 3 horas de espera, o Rei dos seus plebeus, o Padre do seus fieis, o Imperador do seu exército, fez-se aparecer no palco do centro do mundo, e as palpitações que se sentiam, converteram-se em ondas de energia titânicas que explodiam regularmente de várias pontos. No tropel que se expandia ruidosamente, como se de um orgasmo múltiplo tratasse, soltaste repentinamente um grito violento e penetrante, sobrepondo-se ao turbilhão de vozes. Embora conheça o teu temperamento, não consegui deixar de ficar surpreendido.



As músicas seguiram-se umas às outras, o pessoal vibrava absorto da realidade, e eu, como muitas outras pessoas, tentava segurar a máquina de filmar acima da horde de cabeças que se encontravam na minha frente. Apesar da emoção se manter a mesma, a energia da plebe começava a escassear para saudarem o seu monarca, e as palmas, gritos, empurrões, e agitações apareciam agora de forma mais branda e irregular. O ar tornava-se mais denso com o suor colectivo, e de entre os apertões sufocantes, tentava respirar enquanto deixava-me levar pela ondulação da maré dos corpos.



Músicas menos pesadas seguiam-se a outras mais aceleradas, e da mesma forma eram cantadas como se estivessem gravadas na cabeça de uma massa uniforme de pessoas. Quando o ritmo abrandava, aproveitava para fotografar, por outro lado, quando os batimentos aceleravam, preocupava-me em separar e afastar-te a ti e ao meu irmão, da moche que, mesmo ao pé, ora nascia e morria.



Terminado o concerto, e após termos devorado dois cachorros (um para cada um), voltamos para a camioneta que nos ia levar de volta ao porto. Na viagem, desta vez menos longa, abraçados e na companhia de uma musica mais calma, dormimos e acordados em intervalos constantes..





…… um de muitos Tours e concertos que desejo







domingo, 9 de maio de 2010

Corrente de Carne

Somes-te vagarosamente entre os teus desejos saciados e a minha fome ininterrupta,

Desces pelas estrada perigosa da luxúria carnal em direcção ao pecado mais profano,

E negas-me um dos bens mais abençoados da virtuosidade humana.

És a podridão escondida no fogo de artifício que vem tentar consumir o que de decente ainda existe.

Tenho tanto receio de me perder nessa escadaria, desvendar os pecados da alma profundamente cravados no esquecimento do espírito.

Esvai-te de luz enquanto delongo-me num beijo torcido de sabores verdadeiros e, nesse instante deixa-me perpetuar distante de pantominas.

domingo, 25 de abril de 2010

25 de Abril de 1974 - Como foi a Revolução dos Cravos

Otelo Saraiva de Carvalho por volta das 22 horas do dia 24/4/1974 fardado com blusão de cabedal chega ao Regimento de Engenharia Nº1, na Pontinha.

É ali que o major acompanhado de outros oficiais:Os tenentes-coronéis Garcia dos Santos e Lopes Pires, o comandante Victor Crespo, os majores Sanches Osório e José Maria Azevedo, o capitão Luís de Macedo. Ali instalam o posto de comando num pequeno anexo com as janelas tapadas por alguns cobertores, sobre a mesa uns papéis manuscritos e um mapa de estradas do Automóvel Clube de Portugal edição de 1973 que fazia de carta operacional com os esboços das movimentações, sendo a base do “plano geral das operações” que se dividia em duas zonas; Zona Norte que começava no eixo a sul do Porto e Lamego para norte.Zona Sul desse eixo para sul, dividido em quatro sectores;Sector Norte, até a sul de CoimbraSector Centro até norte de SantarémSector Sul daí para sulSector Lisboa que também incluía Santarém.

Dali do Posto de Comando com o nome de código «Óscar» dão o conhecimento da situação e as instruções às unidades militares de todo o país envolvidas nas operações. O primeiro sinal como combinado seria dado pelo então posto “Emissores Associados de Lisboa” às 22:55. João Paulo Dinis era lá locutor e fizera a tropa em Bissau sob as ordens de Otelo, daí a escolha de Otelo. E cabe a Dinis às 22:55 dar voz e escolher a canção «E Depois do Adeus», de Paulo de Carvalho, canção vencedora desse ano do Festival da Canção RTP e que iria a alguns dias representar Portugal no Festival da Eurovisão.

A segunda senha é dada na “Rádio Renascença”.
Otelo fazia ponto de honra que fosse uma canção do Zeca Afonso e estava indeciso entre «Venham Mais Cinco» e «Trás Outro Amigo Também» eram as suas preferidas mas logo os seus camaradas fizeram notar que seriam canções muito óbvias e que iriam suscitar desconfiança.

Foi assim que o jornalista Carlos Albino sugeriu «Grândola Vila Morena» e é esta que acaba por ir para o ar no programa «Limite» de Paulo Coelho e Leite de Vasconcelos que antes de pôr o disco recita a primeira quadra de «Grândola Vila Morena».

São 0:20 e grande parte das forças envolvidas põe-se em movimento.
O Quartel-General da Região Militar de Lisboa é o centro nevrálgico das “Forças do Regime”.

O edifício é tomado pelo Batalhão de Caçadores 5 com o código «Canadá».
A mesma unidade também se encarrega de proteger a residência do general António de Spínola, o general Francisco Costa Gomes não foi alvo de protecção porque não dormiu em casa.

Importante é também o aeroporto da Portela, operação com o código «Nova Iorque» que fica encarregue à Escola Prática de Infantaria (EPI) de Mafra que às portas de Lisboa a coluna militar perde-se nas ruas e becos escuros de Camarate.

Junto ao aeroporto o capitão Costa Martins esperava a coluna da EPI e desesperava e decide neutralizar sozinho de pistola em punho a guarda do aeroporto e entrou mesmo na torre de controle fazendo «bluff» durante mais duma hora dizendo que o aeroporto estava cercado e para se interditar o espaço aéreo português imediatamente.
A EPI chegada toma de imediato conta do aeroporto e ainda neutraliza o Regimento de Artilharia Ligeira 1 em Lisboa junto ao aeroporto.

A Escola Prática de Transmissões fazia as escutas telefónicas militares das forças do regime que depois transmitia ao Posto de Comando.


O Regimento de Cavalaria 3 de Estremoz vem a Lisboa com a missão de controlar a Ponte Sobre o Tejo, tomando posições do lado sul do Tejo (Pragal).
Enquanto nas colinas adjacentes à ponte de ambos os lados a Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas toma posições apontando baterias junto ao Cristo Rei, para o Terreiro do Paço e Monsanto.

A mesma unidade depois vai lá baixo à Trafaria libertar os militares que tentaram a 16 de Março o “golpe das Caldas da Rainha” e que se encontravam presos na Casa de Reclusão da Trafaria.Os órgãos de comunicação social também eram de crucial importância controla-los.
Para isso coube à RTP (única emissora televisiva da época) ser tomada pela então, Escola Prática de Administração Militar, (operação; código Mónaco) já que se situava na mesma rua, (Alameda das Linhas de Torres em Lisboa).

A antiga Emissora Nacional, actual RDP na rua do Quelhas foi tomada com meios limitados pelos capitães Oliveira Pimentel e Frederico de Morais mais 40 praças de especialidades diversas do Campo de Tiro da Serra da Carregueira.
Na rua Sampaio Pina à porta do Rádio Clube Português estão estacionados homens do BC5 dali perto (Campolide) chefiados pelo capitão Santos Coelho e pelo Major Costa Neves da Força Aérea o qual no momento da tomada do RCP é questionado pelo porteiro, se não podiam aparecer após as 9 horas da manhã, que sempre já lá estaria mais gente para os receber!!!

Costa Neves e seus camaradas forçam a entrada e é esse o posto escolhido para emissor do MFA. Como previram que as forças do regime pudessem cortar as ligações às antenas do RCP do Porto Alto, tal como vieram a tentar, então a guarda das antenas ficaram a cargo da Escola Prática de Engenharia, de Tancos que também controlou a ponte de Vila Franca de Xira e a casa da moeda em Lisboa.
Então através do RCP o MFA apresenta-se ao país pela 1ª vez às 4:26 (estava previsto ser às 4 horas mas o engano de percurso da EPI em Camarate atrasou o comunicado) a voz é do jornalista Joaquim Furtado:

«Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas...»

A programação é alterada e passa o hino nacional, marchas militares e canções de protesto e de contestação.

Sucedem-se os comunicados escritos por Victor Alves e Lopes Pires no quartel da Pontinha, que eram lidos aos microfones do RCP. Mediante esta situação os ouvintes ficam a par do desenrolar dos acontecimentos. Mas a missão principal cabe ao capitão Salgueiro Maia e seus homens da Escola Prática de Cavalaria, vindos de Santarém ficam-lhes encarregues várias acções desde de “despiste” ou seja chamar a atenção das forças fiéis ao regime através dum itinerário ostentatório no sentido de dispersar as capacidades inimigas.

E ainda de controlar o Banco de Portugal, a Rádio Marconi e o Terreiro do Paço.
Ali, o ministro do Exército, general Andrade e Silva perante a situação manda abrir à picareta um buraco na parede do gabinete por onde foge mais os ministros da Marinha, da Defesa e do Interior acompanhados de militares de altas patentes.

Antes do golpe a Marinha e a Força Aérea haviam sido contactadas para aderirem mas garantiram a neutralidade. Mas o capitão-de-fragata Seixas Louçã que comandava a fragata «Almirante Gago Coutinho» integrada na NATO e com grande poder de fogo, resolve, ameaçar disparar sobre o Terreiro do Paço.

Ao que é posta ao corrente das baterias de artilharia, já prontas a disparar, posicionadas nas colinas junto ao Cristo Rei. A tripulação ao saber rebela-se e ao fim da manhã a fragata retira-se e vai fundear-se no Alfeite. Momento importante, quando a coluna EPC é interceptada na Avenida Ribeira das Naus por tropas fieis ao regime comandadas pelos brigadeiro Junqueira dos Reis e o tenente-coronel Ferrand d’Almeida, com tanques Patton M47.
É o próprio Salgueiro Maia que vai tentar dialogar, saindo a pé e de lenço branco na mão hasteado e uma granada escondida na outra, ao que o brigadeiro dá ordens para disparar sobre o capitão mas que ninguém obedece!

E depois mesmo alguns tanques de Cavalaria 7 passam-se para o lado de Salgueiro Maia. Outro momento muito importante dá-se às 5 horas quando o Major Silva Pais director-geral da PIDE/DGS dá conhecimento ao presidente do Conselho (função que equivale actualmente à de primeiro-ministro), Marcello Caetano dos acontecimentos que este ainda desconhecia. Referindo que a situação era grave e dando instruções para se refugiar o mais depressa possível no Comando-Geral da GNR no Largo do Carmo porque era um dos sítios que não se encontrava sitiado e que passava mais despercebido.
Mas que veio a revelar-se uma grande armadilha!

Primeiro porque soube-se da sua entrada no Quartel do Carmo às 6 horas, ao que o major Otelo deu ordens para Salgueiro Maia se dirigir para o Largo do Carmo e sitiar completamente o quartel para que não houvesse fugas pelas traseiras.
Na ida da coluna de Salgueiro Maia para o Largo do Carmo, uma companhia do RI 1 comandada pelo capitão Fernandes tenta bloquear a passagem mas após curto diálogo, passam-se para o lado dos revoltosos. Embora em telefonemas mais tarde tentassem convencer Otelo que Caetano não se encontrava lá mas Otelo sabia que era para as forças do regime ganharem tempo.

E segundo porque quando as individualidades mais importantes ligadas ao regime foram socorridas pelo ar, por um helicóptero como no caso do Regimento de Lanceiros 2, esse mesmo helicóptero tentou ajudar a fuga de Marcello Caetano, só que não havia sítio para o helicóptero aterrar e por isso Marcello Caetano receoso permaneceu encurralado no Quartel do Carmo com blindados apontados e ouvindo uma multidão crescente que tinha acordado dum sono profundo ou que tinha aprendido ou descoberto nesse dia que existiam outras coisas como democracia e liberdade...

E gritavam
Por vingança e palavras de ordem contra a ditadura e guerra colonial e outras coisas.


Salgueiro Maia depois terá mesmo pedido calma ao povo de megafone em punho.
Mesmo que o regime não caísse as coisas já não seriam mais como antes, o povo nesse dia tinha ouvido coisas novas e ficou a saber em que tipo de regime e que tipo de políticos governavam o país por isso aderiram de imediato ao Movimento das Forças Armadas!

O tempo passava a GNR não reagia numa tentativa de ganhar tempo.
Maia dá um ultimato à GNR mas nada!

No Posto de Comando desesperavam e Otelo envia um bilhete escrito a Maia:
«Com metralhadoras rebenta com as fechaduras do portão, que é para saberem que é a sério!» Ás 15:10 são dados 10 minutos. (Temia-se que um helicóptero afecto às Forças do Regime pudesse largar uma bomba sobre as forças revoltosas no Largo do Carmo).

Após o prazo esgotado, às 15:25 as metralhadoras duma viatura chaimite disparam contra a frontaria do quartel. Como não houvera reacção da parte do quartel, passado algum tempo um blindado toma posição de canhão apontado e é nesse momento que surgem dois civis: Pedro Feytor Pinto e Nuno Távora, quadros da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, medianeiros entre Spínola e Caetano, este último melindrado com a situação dizia:
«Não quero que o poder cai na rua».

Feytor Pinto telefona a Otelo que em nome do MFA, mandata o general Spínola para receber a rendição de Caetano. Às 18 horas, chega Spínola de automóvel com farda Nº 1. Caetano submete-se e entrega a Spínola o poder e pede protecção.

Spínola transmite a Caetano a intenção do MFA de o enviar para o Funchal. (Iria partir para o Funchal no dia seguinte pelas 7horas, a ele juntaram-lhe também entre outros o Presidente da Republica Almirante Américo Tomás que durante a longa noite da revolução não deu sinal de vida, como se não fosse nada com ele, passou o dia na sua casa no Restelo, saindo sobre escolta para o aeroporto).

E assim às 19:30 sai do quartel o chaimite «Bula», no interior vão Marcello Caetano e António Spínola em direcção à Pontinha, por entre uma multidão eufórica que celebra a “Liberdade” com cravos vermelhos.

Às 19:50 é emitido o comunicado: «O Posto de Comando do MFA informa que se concretizou a queda do Governo, tendo Sua Excelência o Professor Marcello Caetano apresentado a sua rendição incondicional a sua Excelência o General António de Spínola».

Logo após as 20 horas é lida no RCP a «Proclamação do Movimento das Forças Armadas».
E à 1:30 já do dia 26/4/74 aparecem na televisão as novas caras do poder:
A Junta de Salvação Nacional, como presidente, António de Spínola, em que lê uma proclamação ao país:

Um novo regime.

A democracia, a paz.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Idoso


Sei que o Tema aparece um pouco desoportuno na régua do tempo, mas nem por isso
desactualizado. Alias, decidi escrever um pouco sobre a velhice, porque há atrasado ouvi na rádio que estávamos a aproximarmo-nos do Dia Nacional do Idoso. E como que por um mecanismo autónomo, comecei a divagar sobre essa fase da vida humana.


Escrevo apenas aquilo que vejo e sinto, a minha perspectiva tendo em conta a experiência que vou abaganhando.
Diz-se, de uma forma politicamente correcta e sob a máscara do socialmente conveniente e aceite, que as pessoas de idade devem ser tratadas com a mesma dignidade, honorabilidade e respeito, que eram tratadas antes do tempo lhes ter sussurrado ao ouvido. As pessoas mostram-se indignadas, quando este dever social é alienado, e chegam a comentar que os adolescentes, a futura geração deste planeta, completamente deturpada de valores, não dão o verdadeiro valor às pessoas idosas, acabando mesmo por negligenciar e mal tratar.


Concordo. Mas penso que a própria sociedade actual, os nossos pais , tios e irmãos, talvez devido à velocidade alucinante em que se vive, à forma instantânea com que as coisas ganham e perdem o valor, e deixam de ser rentáveis, vê o Idoso como o final de algo que nunca existiu, um despojo sem aproveitamento, que apenas perturba a eficiência do movimento mecânico que dá vida ( económica e financeira) ao relógio do mundo.


Faremos o "simples" exercício de nos colocarmos na pele de uma pessoa que já viveu grande parte da sua vida, e não sabe quanto do pouco ainda lhe sobra. Primeiro penetramos a carne flácida, frouxa e mole, que não responde ao comando central, pelo uso excessivo se encontra cansado. De seguida, ao mesmo tempo que fazemos um esforço superior à velocidade com que nos conseguimos deslocar, tentamos focar no mundo as pessoas que passam na rua, os carros que circulam ao som de buzinadas protestantes, tentamos absorver alguma coisa bebível, que nos dê sede de chegar a algum lado. Talvez um lugarejo calmo que nos segrede ao ouvido, que o caminho percorrido não tenha sido em vão, ou então, um local mais agitado que nos faça ainda sentir o calor do barulho no aparelho auditivo.


Pois é, chegados perto do fim de um trajecto, de um percurso, e tendo a consciência (muitos combatentes perdem mesmo antes do fim, e esmorecem-se de lucidez e têm talvez a “felicidade” de não ter de encarar um fim) de um fim inevitável mas imprevisível, o que lhes passará pelo pensamento? Já tentaram vestir o pensamento de um idoso, e alcançar onde o seu espírito pousa?


Muitas vezes, de carro, passo por pessoas com uma certa idade. Umas estão acompanhadas pelos netos ainda crianças, vindos da escola de regresso a casa (mais uma vez a figura maternal dos avós a se destacar e a ausência dos pais a ser ainda mais evidente); alguns encontram-se pontual e regularmente na tasca da zona para trocarem companhia, outros porque nunca aprenderam a conduzir ou porque lhes disseram que a invalidez tinha chegado, encontram-se à espera do autocarro, nas mesmas paragens, às mesmas horas, nos mesmos dias, talvez à procura de uma rotina antiga… Outros acompanhados pelas duas rodas de uma cadeira andante, conduzem-se para paragens onde os olhos não conseguem enxergar, memorias roubadas pelo tempo, lembranças que se confundem com o real..


Acerco-me da porta que dá acesso à cozinha, sento-me e olho para um prato vazio, e encontro a minha avó debruçada sobre a sopa, algo leve pois os medicamentos são tantos, e ouço-a a viver de novo, cada frase que experimenta, cada aventura que partilha é mais uma oportunidade de regressar para perto dos que foram seus, de percorrer caminhos em que o chão ainda lhe pertencia… e como a minha avó, muitos idosos procuram encontrar na companhia (alheia), uma tela onde projectar o filme que outrora viveram ..


Ok, neste momento devem estar a pensar o quanto sombria é a minha visão e perspectiva sobre a condição humana atingida a velhice. Não querendo induzir-vos em erro, tenho a plena consciência que, cada vez mais, as pessoas idosas têm acesso a formas de tornar a sua vida mais rica, significativa, divertida ect.. e também sei que muitas pessoas chegam ao final das suas vidas com a sensação de plenitude, e muitas delas até continuam a fazer o que faziam quando eram novas. De resto, com este “post” quis focar a outra parte, as pessoas que muito provavelmente se sentem descriminadas, ou isoladas, que demonstram-no através dos seus comportamentos de afastamento, e até mesmo aqueles que não têm a coragem de o dizer.

Não queria com este “post”, somente criticar o modo com que a sociedade perspectiva o Idoso, mais que isso, quis desabafar o que sinto sobre o assunto, e talvez apelar às pessoas que não têm muita paciência (tal como eu) para lidar com pessoas que estão na fase terminal de um percurso mas que não deixam de SER.

domingo, 18 de abril de 2010

Benfica na Liga dos Campeões - Hilter version





Finalmente vemos as aguias a voar, até pensava que já lhes tinham cortado as asas e depenadas, mas mesmo assim Hilter mostra-se indignado!!

Historia do Cóco





Para quem pensa que os desenhos animados do Sangoku são violentos, aqui vai um trailer da animação brasuca! looooooool

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Bilhetes de Jogo de Futebol

Este pequeno texto apresenta-se sob a forma de uma sugestão e consequente questionário de opiniões. É bem patente e visivel a descrepancia da capacidade financeira entre as equipas de futebol da primeira liga, havendo inclusivé jogadores que viram os seus salários atrasados, enquanto outros ganham fortunas inimagináveis.

Pois bem, não estou a par do destino final do reembolso dos bilhetes que cada clube vende para os respectivos jogos, mas se houvesse um preço fixo, que fosse identico, se não o mesmo, em todos os jogos independentemente dos clubes presentes na partido, penso que ajudaria a resolver 2 questões:

Primeiro, com bilhetes mais acessiveis haveriam mais pessoas a assistirem às partidas, contribuindo para o enriquecimento dos clubes mais desfavorecidos.

Segundo, e em consequência da primeira, haveria um maior nivelamento na facturação efectuada entre os clubes.

Obviamente que os clubes "grandes" obterão sempre maior lucro, uma vez que detêm maior massa de adptos, mas pelo menos também não ganhariam "exageradamente" comparativamente aos restantes.

O que acham desta ideia?

Poster - Trusses Modernos




"Que tipo de trusses trouxe?"
"Destess"

" O amigo parece avantajado"
"É normal"

" Ha muitas pessoas que não têm o orgasmo em condições, mas eu graças a deus tenho muito orgasmo"

Poster - Impéractivo



"És imperactivo?"´
" Sempre"

"É por isso que tenho que sair sempre à noite"
"POSTER - O TÍMIDO"





" Sou tímido, mas ha uma coisa, entre quatro paredes não sou tímido,percebeste?"

" E agora posso ser tipo vira-casacas, não ser tímido e entrar a matar? Pronto então agora vou passar a ser o Poster É TUDO A ABACALHAR"

LOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Atletismo - Treino de Força nos lançamentos

Gustavo Ventura (Cuba)

Professor

Licenciado em Cultura Física (Instituto Superior de Cultura Física de Havana)

Treinador

de atletismo da Federação de Atletismo de Cuba

(Atletas Juvenis e Juniores – Sector de Lançamentos)

Actualmente

é Treinador de Lançamentos na F.P.A.

Treinador

pessoal dos atletas Marco Fortes e Cristina Ferreira.

Colaborador

do Sector de Lançamentos da FPA.

Colaborador

do Sector de Provas Combinadas da FPA.

1. Correlação entre o desenvolvimento da Força Explosiva e o

desenvolvimento das outras capacidades físicas

O desenvolvimento da força é um dos aspectos mais importantes de todo o

processo de treino nas diferentes disciplinas dos lançamentos. Assim, o trabalho de

força deve ser uma constante no treino dos lançadores, e isto a partir dos escalões

mais jovens. Entre os diferentes tipos de manifestação da força, podemos considerar

o desenvolvimento da Força Explosiva como o trabalho mais específico no que

respeita às disciplinas de lançamentos, pois a componente da velocidade é

fundamental neste tipo de provas.

Quando analisamos os meios de treino específicos para o desenvolvimento da Força

Explosiva, não podemos esquecer que existe uma grande correlação entre este tipo

de trabalho e o desenvolvimento de outras capacidades físicas, também elas

importantes nos lançamentos, nomeadamente:

§ Os meios e métodos de trabalho muscular utilizados para o desenvolvimento

da Força Explosiva permitem o aumento efectivo dos outros tipos de

manifestação da força nos grupos musculares específicos e o

desenvolvimento multifacetado da força em todo o sistema muscular.

§ Os meios de desenvolvimento da Força Explosiva influenciam directamente o

desenvolvimento e manutenção da agilidade.

§ A preparação física multifacetada não exerce um efeito directo sobre o

aumento da Força Explosiva, mas tem um importante papel como meio de

recuperação da capacidade de trabalho.

2. Correlação entre o desenvolvimento da Força explosiva e o

desenvolvimento das Capacidades Psicológicas

Por vezes há a tendência dos treinadores de atletismo para não darem a devida

atenção ao desenvolvimento das capacidades psicológicas dos seus atletas, o que é

errado, pois os factores psicológicos contribuem em grande parte para o sucesso de

todo o processo de treino. Por vezes podese

pensar que o trabalho psicológico está completamente desligado do trabalho técnico e físico,

quando na realidade muito do que se faz no treino do dia a dia pode estar a contribuir para a

melhoria das capacidades psicológicas dos atletas.

No que respeita ao trabalho da Força Explosiva, há alguns aspectos que vão

contribuir para fortalecer as capacidades psicológicas dos atletas, nomeadamente:

§ O processo de desenvolvimento da Força Explosiva influencia a preparação

psicológica, pois a alta intensidade de execução dos exercícios e o grande

volume deste treino em situações de enorme fadiga, exigem uma grande

concentração e força de vontade, resultando na melhoria da estabilidade

psicológica.

§ A execução de exercícios com uma velocidade de execução maior do que a

da competição, permite aos atletas vencer a barreira psicológica da

velocidade.

§ A variação da força e da velocidade de execução dos exercícios de alta

intensidade permite a formação de qualidades volitivas.

3. Metodologia para conservação dos patamares alcançados ao nível das

capacidades Força / Velocidade

Após o Período de Preparação há um incremento do trabalho mais específico, sendo

fundamental manter os níveis atingidos em termos do desenvolvimento das

principais capacidades físicas, nomeadamente a Força / Velocidade. Para isso

vamos utilizar os seguintes meios, métodos e regimes de trabalho:

§ MEIOS: Utilizamse

exercícios especiais auxiliares.

§ MÉTODOS: Os principais métodos utilizados são os de influência analítica,

sintética e os métodos de repetições.

§ REGIMES DE TRABALHO MUSCULAR: Os principais regimes de trabalho

são os dinâmicos com ênfase no trabalho motor e estático. Durante a

execução dos exercícios especiais auxiliares é utilizado o regime dinâmico

combinado com o trabalho motor dos músculos.

4. Magnitudes e resistências a vencer e intensidades de execução dos exercícios

Um dos aspectos importantes para o treinador resolver no que respeita ao treino da força, está

relacionado com as cargas a utilizar nos diferentes tipos de exercício e de treino, assim como a

intensidade de execução na realização desses exercícios. Se dividirmos o trabalho de um lançador

em três diferentes grupos, exercício competitivos, exercícios especiais auxiliares e exercícios

especiais, podemos definir tanto a magnitude das resistências a vencer (cargas), como a

intensidade de execução em cada grupo de exercícios.

Durante a execução de exercícios competitivos:

Amagnitude da resistência a vencer é igual à da competição.

Aintensidade de execução é de 80 a 90%.

Durante a execução de exercícios especiais auxiliares:

Amagnitude da resistência a vencer é submáxima(8090%).

Aintensidade de execução é de 90 a 95%.

Durante a execução de exercícios especiais:

A magnitude da resistência a vencer é menor ou maior que a da competição, mas permitindo conservar a estrutura externa e interna específica do movimento.

Aintensidade de execução é de 90 a 95%.

5. O Treino da Força

Para terminar este artigo, vamos deixar um exemplo da organização do treino da

força, quer para atletas seniores, quer para atletas jovens, dividindo o trabalho da

força em desenvolvimento da força de resistência, desenvolvimento da força máxima

e desenvolvimento da força rápida.

5.1. Número máximo de repetições em cada série (atletas seniores)

Desenvolvimento da Força de Resistência:

Númerode exercícios (ou estações) de cada treino: 5 a 10.

Totalde séries em cada estação: 4 a 6.

Intensidadede trabalho e número de repetições por série:

6-7 x 70%

7-8x 65%

8-9x 60%

9-10x 55%

10-11x 50%

Desenvolvimento da Força Máxima:

Númerode exercícios (ou estações) de cada treino: 2 a 3.

Totalde séries em cada estação: 1 a 3.

Intensidadede trabalho e número de repetições por série:

1 x 100%

1-2x 95%

2-3x 90%

Desenvolvimento da Força Rápida:

Númerode exercícios (ou estações) de cada treino: 3 a 5.

Total de séries em cada estação: 3 a 5.

Intensidade de trabalho e número de repetições por série:

3-4x 85%

4-5x 80%

5-6x 75%

6-7x 70%

5.2. Número máximo de repetições em cada série (atletas jovens)

Desenvolvimento da Força de Resistência:

Númerode exercícios (ou estações) de cada treino: 5 a 10.

Totalde séries em cada estação: 1 a 3.

Intensidadede trabalho e número de repetições por série:

8-9x 50%

9-10x 45%

Desenvolvimento da Força Máxima:

Número de exercícios (ou estações) de cada treino: 2 a 3.

Total de séries em cada estação: 1 a 2.

Intensidade de trabalho e número de repetições por série:

1 x 90%

1-2x 85%

2-3x 80%

Desenvolvimento da Força Rápida:

Número de exercícios (ou estações) de cada treino: 3 a 5.

Total de séries em cada estação: 1 a 3.

Intensidade de trabalho e número de repetições por série:

3-4x 75%

4-5x 70%

5-6x 65%

6-7x 60%

7-8x 55%

Dedicatória anónima

Março despede-se e, com um sorriso soalheiro cumprimenta o rosto mais deslumbrante que Abril antevia cheio de vida , e nasceste tu…

…Ser de mil e uma cores, trovoada de tonalidades e sons, indomável e resplandecente.

De vontade é feita a tua essência, de esperança e pertinácia a força incessável explosiva que acomoda o teu coração.

Chocolate suave e cremoso que se confunde com a tua pele, derramado sobre a voracidade musculada do agir, que te faz sobrevoar chamas, mergulhar nas águas mais profundas e vis, que alumia os dias mais cinzentos..

Recusas a delicadeza da falsidade, e viras costas ao apropriado, és diamante polido pela impetuosidade, ardor e arrebatamento sincero, no entanto, para onde quer que “sprints” não consegues despir-te da humildade e generosidade…

És explosão caótica de vida, excedes-te de humanidade, apoteose transbordante do sentir, da emoção que se revela mar moto de luz que trespassa persianas dos corações mais tímidos..

Não consigo definir aquilo que és, daquilo que te compõem, apenas consigo revelar a felicidade que sinto em ter te como amiga...

P.S: I always will catch you if you stumble ;)

quinta-feira, 25 de março de 2010

Indisciplina e vilolência

A indisciplina e violência nas escolas são manchetes que introduzem e fecham os telejornais da actualidade. Como ricem chegado à profissão de professor do 1º ciclo do ensino básico, sinto-me na obrigação conscienciosa de reflectir sobre este assunto.

De facto, apesar de estar a leccionar há pouco mais de um mês, já consegui entender até que ponto a falta de valores e a discrepância social, atinge o panorama escolar.Poderia limitar-me a afirmar que, o motivo para tanta indisciplina, seria a falta ou má educação que os pais fornecem aos filhos, no entanto, e não caindo no cliché actual da culpabilização do outrem, tenho a certeza que grande parte do problema reside precisamente aí.

Agora, pensemos nós (e faço um apelo a todos que são professores), será que os pais têm consciência do grau de adequabilidade da educação que dão aos seus filhos? Será que eles próprios, por fruto do infortúnio das circunstâncias, não receberam a devida educação que possam transmitir aos seus progenitores? De facto, não nos adianta culpabilizar os pais, não nos adianta afirmar de forma perdedora e desistente que a razão para todo este clima hostil seja a “sociedade” estruturada com uma essência caótica e vil.

"Queremos que o stress profissional passe a constar da lista de doenças profissionais dos professores. O segundo aspecto é que a violência exercida sobre os professores passe a ser tipificada como crime público, com todas as consequências que isto tem no actual quadro legal em vigor", defendeu o secretário geral da Fenprof, Mário Nogueira.

Esculpem-se batalhas incessantes entre os sindicalistas e o governo, na idílica tentativa de resolver o problema, quando na realidade, na minha humilde opinião, estão a perder tempo , e talvez a enfatizar o problema. A verdadeira solução reside na esperança que ainda haja professores com a autentica vontade de perceber, entender, e alterar os comportamentos dos alunos.

O Mário Nogueira afirma ser importante contratar animadores socioculturais para que possam acompanhar os alunos nos intervalos. Com ideias deste género provenientes de representantes dos professores, como haverias de ver melhorias no ensino?! Mais uma vez o professor a querer transmigrar a responsabilidade para outras entidades.

A solução reside em nós, professores, sermos capazes de chegar a cada um dos alunos, como seres únicos, e não tipificando-os como “hiperactivos” ou “mal – educados”. Só o conseguiremos se tivermos a sensibilidade de identificar a razão para distúrbios de atitudes e comportamentos, e agirmos prontamente, sem que as dificuldades eventuais desse desafio sejam a razão para lançarmos a culpa e a responsabilidade sobre os ombros dos “pais” e as costas quente da “sociedade”.

É verdade que a escola é o reflexo do que se passa no mundo adulto, mas se os adultos do mundo real se têm vindo a transformar em animais e máquinas consumistas, resta-nos a NÓS PROFESSORES recriar um novo mundo, um mundo onde o respeito mútuo e a fraternidade ainda persistam.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Hay un dicho
que no se sabe lo que se tiene
hasta que se pierde

(perdedor)

Te vi llorar
viviste la monotonía
y te escuchaba hablar
pero era él que te entendía
y me robó ese tesoro de duende
y ahora comprendo el valor
que no se tapan los defectos con pretextos
en cambio siento rencor

Ay ve y dile que lo odio y lo detesto
por tener lo que fue mio aunque
el culpable he sido yo
que hoy lo considero un enemigo
lamentando mi perdida en la batalla por tu amor
recálcale que no duermo de noche
imaginando que en el sexo
el te debora con pasión

Me falta valentía para admitirle
que a tu lado fui un chiquillo
y su hombría superó
agrégale que hoy yo me revelo
envidioso, egoista, impulsivo sin control
por creer que yo era el único
que tu amarías que estúpido fulano
con el premio y yo el perdedor


ah..ah..ah..

the kings...



Lo vi llegar
y no pensé que importaría
y te empezaba a conquistar
convirtiéndote en mi enemiga
y me robó ese tesoro de duende
y ahora comprendo el valor
que no se tapan los defectos con pretextos
en cambio siento rencor

Ay ve y dile que lo odio y lo detesto
por tener lo que fue mio aunque
que el culpable he sido yo
que hoy lo considero un enemigo
lamentando mi perdida en la batalla por tu amor
recálcale que no duermo de noche
imaginando que en el sexo
el te devora con pasión

Me falta madurés
para admitirle que a tu lado
fui un chiquillo
y su hombría superó
agrégale que hoy yo me rebelo
envidioso egoista impulsivo sin control
por creer que yo era el único
que tu amarías que estúpido fulano
con el premio y yo el perdedor

ah..ah..ah..

this is bananas.
who else...
Aventura..

Se apenas saberei o verdadeiro valor quando te perder, prefiro permanecer na ingénua ignorancia do nosso sonho ;)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Silêncio

O silêncio possuía a palavras que queriam ser ditas, o silêncio pôs-se à espreita, e com palavras vastas encontrou um domingo de chuva, estavas vestida de calças da cor da relva, e camisola de lã da cor do sol, entre raios de sorrisos queimados, e saltitares enérgicos, trocávamos trejeitos de cumplicidades, aqueles olhares que duas pessoas trocam quando o que pensam confunde-se com o que sentem.

A chuva oblíqua batia no pára-brisas do carro, enquanto o silêncio, cheio de palavras fartas, se debruçava sobre o muro alto da memória e observava dois corpos unidos, que se confundiam com uma massa aglomerada de pele, dois corpos a respirarem por 4 pulmões, dois corpos que eram guardados pelo mar, e em frente ao mar, no interior do habitáculo do carro eram protegidos do vento frio que insistia em afastar o calor.



O silêncio, tornou-se valente e ousado, e perfurou uma massa de pessoas a ouvir musica que flutuava ao demando mecânico de um DJ qualquer, e surpreendeu-se quando viu os mesmo corpos, desta vês vestidos, a embalarem-se ao som da musica qualquer que o DJ qualquer soltava, os corpos olhavam-se e emitiam sons, trocavam feições, e partilhavam o que eram.



O silêncio esforçou-se arduamente para acompanhar os dois corpos, que distraidamente corriam lado a lado, e pareciam partilhar os mesmos membros, ao silêncio escapou muitas corridas esgotadas, ora aqui, ora acolá.



No silêncio se prolonga as conversas mais interessantes que um dia calhou existir, no frenesim sonoro onde mora o silêncio, reside as palavras que se trocam, e as que nunca foram repartidas.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Improviso de sentimentos

O que as palavras não conseguem expressar, o que os ouvidos estranhos não conseguem filtrar;

O que os olhos não conseguem perscrutar, o que a razão nãp consegue explicar;

O que o coração não consegue suportar...os dedos mexem-se ao ritmo da alma, e em uníssono com o piano derramo emoções que apenas eu sei entender.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Ainda somos humanos?!

Com os auscultadores colocados nos ouvidos, ligados ao meu telemóvel, ouvia a minha banda sonora favorita, o ultimo samurai, enquanto corria na passadeira do ginásio, e olhava para o exterior, onde figuravam arvores desnudadas pelo tempo e automóveis que protegiam as pessoas do frio gélido do inverno.

Enquanto corria distâncias no mesmo lugar, a minha mente tomada por uma efervescência muito própria, deambulou para outras paragens, e deparei-me a pensar no poder sobre-humano que, hoje em dia, o dinheiro tem.

As pessoas, na febre lúcida de tentarem acrescentar mais um euro ao seu cofrezinho particular ( hoje em dia as pessoas abrem-se no inicio, e fecham-se no final do dia como se de pequenas empresas bancárias tratassem), tornam-se autênticos animais, comportando-se como tal, mas sempre de uma forma “humana” e “educada”, esperando pelo momento certo para atacar a presa. As pessoas, para acrescentarem mais um euro ao mealheiro de vaidades, gastam tempo em projectos e esquemas, e esquecem-se do tempo em que ainda se dedicavam aos princípios e valores verdadeiramente humanos.

Com a pobreza de muitos , outros enriquecem compactuando com o Diabo, abdicando, gradualmente da alma humana.

Toda esta necessidade de subsistir (porque infelizmente não existe vida sem a moeda que a pode comprar, de carregar e transportar no bolso (hoje em dia uma algibeira já não basta ser feita em algodão, tem que reluzir bordados de ouro) a matéria prima de troca, que permite alcançar a alegria, e para muitos, a felicidade eterna, sobrecarrega com inabalável peso a imperiosa responsabilidade de TERMOS que TER dinheiro.

O tempo dedicado à realização do simples e do belo, àquilo que realmente nos trás e que nos permite dar prazer é excluído das “agendas” ( porque na actualidade, se não tiveres uma agenda é porque não fazes nada na vida, não és nada, não chegas a ter a dignidade merecida por um insecto), é relegada para “quando houver tempo” , ou então é completamente aniquilada pelos “não tenho tempo para X, Y ou Z”

Fico triste ao ver como o ser humano se deixa seduzir compulsivamente pelo poder e peso do dinheiro, da forma como confunde a palavra “amar” e “gostar” com aquilo que lhe permite tecer mais uma linha dourada envolta, ou até dentro em alguns casos, das algibeiras antes simples e belas.

Mete-me repulsa pensar que não conseguirei escapar às garras do superficialíssimo e desumanismo (acabei de inventar este vocábulo) atroz que se verifica nos dias que correm.

Para quê perder um dia, um mês, perder a vida na tentativa de acrescentar mais um euro à fortuna idilicamente sonhada? Porquê se confunde a felicidade com essa viagem sem retorno? Porquê deixamos de apreciar o simples e o bonito? Aquilo que vemos e ouvirmos.

Pois é, o tilintar da moeda torna-se tão alto, tão colossal e arraigado que abafa a voz do espírito, aniquila completamente o prazer que antes houvera em ouvir o próximo.

O poder incessantemente maior do dinheiro está a furtar a identidade humana das pessoas, transformando-as em maquinas desprovidas de espírito e sensibilidade, nega a atenção de nós para nós mesmos e de nós para os outros.