terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Ainda somos humanos?!

Com os auscultadores colocados nos ouvidos, ligados ao meu telemóvel, ouvia a minha banda sonora favorita, o ultimo samurai, enquanto corria na passadeira do ginásio, e olhava para o exterior, onde figuravam arvores desnudadas pelo tempo e automóveis que protegiam as pessoas do frio gélido do inverno.

Enquanto corria distâncias no mesmo lugar, a minha mente tomada por uma efervescência muito própria, deambulou para outras paragens, e deparei-me a pensar no poder sobre-humano que, hoje em dia, o dinheiro tem.

As pessoas, na febre lúcida de tentarem acrescentar mais um euro ao seu cofrezinho particular ( hoje em dia as pessoas abrem-se no inicio, e fecham-se no final do dia como se de pequenas empresas bancárias tratassem), tornam-se autênticos animais, comportando-se como tal, mas sempre de uma forma “humana” e “educada”, esperando pelo momento certo para atacar a presa. As pessoas, para acrescentarem mais um euro ao mealheiro de vaidades, gastam tempo em projectos e esquemas, e esquecem-se do tempo em que ainda se dedicavam aos princípios e valores verdadeiramente humanos.

Com a pobreza de muitos , outros enriquecem compactuando com o Diabo, abdicando, gradualmente da alma humana.

Toda esta necessidade de subsistir (porque infelizmente não existe vida sem a moeda que a pode comprar, de carregar e transportar no bolso (hoje em dia uma algibeira já não basta ser feita em algodão, tem que reluzir bordados de ouro) a matéria prima de troca, que permite alcançar a alegria, e para muitos, a felicidade eterna, sobrecarrega com inabalável peso a imperiosa responsabilidade de TERMOS que TER dinheiro.

O tempo dedicado à realização do simples e do belo, àquilo que realmente nos trás e que nos permite dar prazer é excluído das “agendas” ( porque na actualidade, se não tiveres uma agenda é porque não fazes nada na vida, não és nada, não chegas a ter a dignidade merecida por um insecto), é relegada para “quando houver tempo” , ou então é completamente aniquilada pelos “não tenho tempo para X, Y ou Z”

Fico triste ao ver como o ser humano se deixa seduzir compulsivamente pelo poder e peso do dinheiro, da forma como confunde a palavra “amar” e “gostar” com aquilo que lhe permite tecer mais uma linha dourada envolta, ou até dentro em alguns casos, das algibeiras antes simples e belas.

Mete-me repulsa pensar que não conseguirei escapar às garras do superficialíssimo e desumanismo (acabei de inventar este vocábulo) atroz que se verifica nos dias que correm.

Para quê perder um dia, um mês, perder a vida na tentativa de acrescentar mais um euro à fortuna idilicamente sonhada? Porquê se confunde a felicidade com essa viagem sem retorno? Porquê deixamos de apreciar o simples e o bonito? Aquilo que vemos e ouvirmos.

Pois é, o tilintar da moeda torna-se tão alto, tão colossal e arraigado que abafa a voz do espírito, aniquila completamente o prazer que antes houvera em ouvir o próximo.

O poder incessantemente maior do dinheiro está a furtar a identidade humana das pessoas, transformando-as em maquinas desprovidas de espírito e sensibilidade, nega a atenção de nós para nós mesmos e de nós para os outros.

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