domingo, 20 de junho de 2010

Metallica "Dead Magnetic Tour" 19 Maio





O meu olhar prendia-se num manual que partilhava a nossa atenção, enquanto o constante balbuciar de conversas preenchia o habitáculo da camioneta que nos transportava para Lisboa. Enquanto falávamos sobre cultura cinéfila, meu irmão, sentado no outro lado do corredor que nos dividia, ouvia música com os headphones e, absorvido, jogava o seu Nintendo DS.



Entre os breves momentos que desviava o atento olhar do teu rosto alegre, minha atenção recaía na paisagem árida que se desenhava no exterior. Composta por extensos prados amarelados, o sol reflectia, em espaços regulares, nas folhas verdes que se pintavam de forma viva, que se destacavam por entre os sopés das montanhas, e desfiladeiros que se estendia ao longo da estrada.



Talvez pela expectativa que construíra, ou então, pela companhia, o sentimento de plenitude , de conforto e felicidade apaziguadora apoderara-se de mim, e o calor abrasador e sufocante que se fazia sentir lá fora, inflamava ainda mais, o meu calmo coração, enquanto o ar condicionado projectando correntes de quietude, moderava a chama de ansiedade que se formava em cada um dos rostos.



A viagem demorava-se nas horas, mas encurtava-nos os momentos de pura felicidade partilhada, e quando os estômagos já não suportavam, fizemos a 1º paragem para almoçarmos. Sob um calor seco, sem se sentir a presença do vento, ocupamos uma mesinha de pedra, e com a habilidade que o momento nos permitia, retiramos comes e bebes das lancheiras, e protegidos do calor por uma cobertura de rede, regalamo-nos com um simples almoço, que nos soube a banquete, ao lado de um grupo de rapazes que partilhavam do mesmo momento.



Nesse instante, fui novamente arrebatado pelo mesmo sentimento de conforto e bem-estar, que se tinha solapado durante a viagem, quando a tua cabeça descansava no meu peito. A simplicidade com que se estabeleciam relações, a forma sincera e transparente com que trocavas palavras com o meu irmão (até então era te desconhecido), a forma despreocupada com que te borravas com o sumo da laranja, que vertia dos cantos da boca, tudo isso, fez-me sentir um prazer reconfortante de felicidade, possivelmente um dos prazeres mais simples e ingénuos que alguma vez tivera.



Depois de acomodada a barriga, fomos tomar um merecido café ao bar da estação de serviço, enquanto esperávamos que toda a gente terminasse de almoçar, de fumar os seus cigarros e de entrarmos na carrinha para continuarmos a nossa viagem.



De seguida a viagem tornou-se mais calma, já com o almoço na “pança” , e a sua habitual consequente moleza que tomava posse dos corpos, embora, todos, com uma única excepção, não se conseguiam desfazer da sofreguidão por que passavam.



E assim, neste cenário, continuamos a nossa partilha de momentos, enquanto de modo sempre curioso e atento, desfolhávamos cineastas, realizados e actores de filmes de outras décadas. Com clarividência e convicção inabaláveis nomeavas-me as figuras que mais se destacavam, alegando o seu perfil astral, ao passo que eu apontava os filmes da minha preferência. Quando as estrela cinematográficas já não satisfaziam o deleite da conversação, optamos por nos deixar acompanhar pela musica, e partilhando os mesmos headphones, ouvíamos Metallica, um de encontro ao outro, abraçando-nos para encurtar a distancia que nos afastava do palco dessa noite que iria levar-te ao êxtase.



Quando a camioneta perpassava Leiria, a emoção varonil fazia-se sentir, de forma contagiante, pelo que o pessoal que anteriormente se encontrava a dormitar, achava-se agora completamente desperto, e enlevado no entusiasmo, conversavam distraidamente com as mentes concentradas no que viria a passar-se em palco.



Finalmente, podemos acordar as pernas entorpecidas pela longa viagem que deixamos para trás, e sentir os ares da “Mouraria”, quando a camioneta parou no cais do oriente, numa estação de camionagem. Eram 17:30 e atravessávamos a rua adjacente ao Centro Comercial Vasco da Gama em direcção ao Pavilhão Atlântico. Apetecia-me descontrair e descansar um pouco da fatigante viagem, aproveitar para passear entre as pessoas e absorver a agitação que se desenrolava junta ao Tejo. No entanto, mal eu e o meu irmão nos sentamos num dos banquinhos de pedra que se perfilavam em toda a extensão da avenida, resguardada por amplas copas de árvores, tu, possuída pela tua habitual inquietude, e o receio ardente de deixares escapar o espaço entre o palco e o sítio que ocuparíamos, tentavas apressar-nos para uma das filas que serpenteavam até às várias entradas do pavilhão. Como de vagar se vai ao longe, e com pressas se fazem desastres, decidi aproveitar os poucos instantes de sol que ainda nos restava para, na companhia do meu irmão, passear um pouco, e eventualmente comprar alguma coisa para mastigar mais tarde. Não tinham passado 10 minutos, quando, ainda sentado numa retrete de uma da casa de banho do Vasco da Gama, reparo que tenho 2 chamadas não atendidas, e 5 mensagens por ler. Como foste germinada com os “Colhões do Diabo”, e a paciência não faz parte integrante do cardápio das tuas virtudes, já me bombardeavas com mensagens saudosas heheh, não, eram mesmo mensagens para me alertar da pressa que deveríamos ter em chegar junto da fila.



Depois de, graças à tua impaciência e intemperança, ter que me desfazer de um saco cheio de fruta (tua), uma vez que não se podia levar nada bebível e comestível para o interior do recinto, entramos na escuridão e abafo, eram apenas 18, e os raios de sol ainda reflectiam esplendorosamente na superfície verde calma do Tejo.






No interior encontramos grande parte dos fans aglomerados em torno do palco, situado no centro do recinto, que reservava firmemente o lugar mais próximo possível dos seus ídolos. Alguns holofotes suspensos sobre o palco emitiam feixes de luzes fortes, que contrastavam o ar escuro e denso, entrecortando espaços de extrema nitidez e claridade, onde se podia distinguir as faces humanas, e intervalos em que a escuridão tomava posse do desenho humano, não me permitindo vislumbrar mais do que vultos. A minha atenção foi atraída para o aparato que se pendia sob o palco, cinco caixões aparentemente revestidos de metal, desprendiam-se do tecto através de finos e imperceptíveis cabos. Caixão esse figura da capa do ultimo álbum dos Metallica, “Death Magnetic”.



As pessoas iam entrando no pavilhão, e a pequena multidão de fans que se acomodavam à volta do palco, crescia ininterruptamente dando lugar a uma massa comum, única e coesa de pessoas muito diferentes. Acompanhadas pela sua cara metade, ou então no seio de amigos, conversando, ora de pé, ora sentadas no chão, fumando cigarros escondidos, ou vertendo a bela da loira, as pessoas não arredavam pé do lugar que tanto tinham ansiado encontrar.



Os dígitos do relógio desenhavam 19:30 quando no palco entrou a primeira banda da noite, um grupo Irlandês cujo nome nunca cheguei a saber, e , tendo em conta a sua performance, não estou interessado em descobrir. Da mesma opinião, partilhava certamente maior parte das pessoas, pois palavras de gozo eram despejadas para o palco, assim como risos e gritos abafados de ironia.



Nessa altura, quando olhei para trás, apenas consegui ver carreiras de rostos virados na mesma direcção, e pensei em quão expectantes estariam, e em que poderiam estar a pensar. Tu estavas na eminência graciosa de algo culminante e belo, dos teus olhos castanhos soltava-se um brilho subtil, que era acompanhado pelo tartamudear exaltado das palavras que libertavas. O meu irmão ocultava o mesmo sentimento de felicidade por debaixo de uma expressão mais calma e serena, no entanto, o seu olhar, não concordante, atraiçoava-o deixando escapar um leve sorriso.





Na passagem entre as actuações da primeira e segunda banda, as pessoas aproveitavam para trocar experiencias, ideias e opiniões acerca dos seus idolos, que estavam prestes a marcar presença no palco dos seus sonhos. Enquanto a segunda banda, que se veio a revelar bem mais interessante que a anterior, não dava graças da sua alma, entretinha-me a observar com mais cuidado toda a ornamentação do espectáculo. Além dos caixões colossais, vários barões metálicos estendiam-se sobre o centro do palco, aos quais estavam fixos painéis com diferentes focos de luz. Sobre o palco encontravam-se vários instrumentos, como uma bateria perto de um dos extremos, algo bastante grande era encoberto por uma cobertura escura, e microfones com suporte alto, fazendo lembrar os utilizados em décadas passadas, perfilavam-se em torno do palco circular.



Aproximava-se do momento que tanto se ansiava, as pessoas já não conseguiam manter a calma, e o som premonitório das guitarradas desconhecidas despertava os ecos distantes da bateria tão conhecida por todos. Aplaudia-se, na desordem de sentimentos e emoções, o vazio que os músicos preenchiam ainda na ausência dos ídolos, e como se de um aquecimento ou preparação se tratasse, os fans esticavam os braços para o céu, gesticulando significados, qual horda que saúda o seu soberano. Nesse instante, senti-me sozinho, isolado no meio de muitas pessoas, por não compartilhar da mesma motivação, paixão e fervor. Todos aqueles braços içados em uníssono, sobre as cabeças que se inclinavam para o mesmo sitio, todos os gritos vociferados, e as palpitações que se propagavam de forma irregular, transportaram-me para uma realidade num outro plano.



Finalmente, após 3 horas de espera, o Rei dos seus plebeus, o Padre do seus fieis, o Imperador do seu exército, fez-se aparecer no palco do centro do mundo, e as palpitações que se sentiam, converteram-se em ondas de energia titânicas que explodiam regularmente de várias pontos. No tropel que se expandia ruidosamente, como se de um orgasmo múltiplo tratasse, soltaste repentinamente um grito violento e penetrante, sobrepondo-se ao turbilhão de vozes. Embora conheça o teu temperamento, não consegui deixar de ficar surpreendido.



As músicas seguiram-se umas às outras, o pessoal vibrava absorto da realidade, e eu, como muitas outras pessoas, tentava segurar a máquina de filmar acima da horde de cabeças que se encontravam na minha frente. Apesar da emoção se manter a mesma, a energia da plebe começava a escassear para saudarem o seu monarca, e as palmas, gritos, empurrões, e agitações apareciam agora de forma mais branda e irregular. O ar tornava-se mais denso com o suor colectivo, e de entre os apertões sufocantes, tentava respirar enquanto deixava-me levar pela ondulação da maré dos corpos.



Músicas menos pesadas seguiam-se a outras mais aceleradas, e da mesma forma eram cantadas como se estivessem gravadas na cabeça de uma massa uniforme de pessoas. Quando o ritmo abrandava, aproveitava para fotografar, por outro lado, quando os batimentos aceleravam, preocupava-me em separar e afastar-te a ti e ao meu irmão, da moche que, mesmo ao pé, ora nascia e morria.



Terminado o concerto, e após termos devorado dois cachorros (um para cada um), voltamos para a camioneta que nos ia levar de volta ao porto. Na viagem, desta vez menos longa, abraçados e na companhia de uma musica mais calma, dormimos e acordados em intervalos constantes..





…… um de muitos Tours e concertos que desejo