
Sei que o Tema aparece um pouco desoportuno na régua do tempo, mas nem por isso
desactualizado. Alias, decidi escrever um pouco sobre a velhice, porque há atrasado ouvi na rádio que estávamos a aproximarmo-nos do Dia Nacional do Idoso. E como que por um mecanismo autónomo, comecei a divagar sobre essa fase da vida humana.
Escrevo apenas aquilo que vejo e sinto, a minha perspectiva tendo em conta a experiência que vou abaganhando.
Diz-se, de uma forma politicamente correcta e sob a máscara do socialmente conveniente e aceite, que as pessoas de idade devem ser tratadas com a mesma dignidade, honorabilidade e respeito, que eram tratadas antes do tempo lhes ter sussurrado ao ouvido. As pessoas mostram-se indignadas, quando este dever social é alienado, e chegam a comentar que os adolescentes, a futura geração deste planeta, completamente deturpada de valores, não dão o verdadeiro valor às pessoas idosas, acabando mesmo por negligenciar e mal tratar.
Concordo. Mas penso que a própria sociedade actual, os nossos pais , tios e irmãos, talvez devido à velocidade alucinante em que se vive, à forma instantânea com que as coisas ganham e perdem o valor, e deixam de ser rentáveis, vê o Idoso como o final de algo que nunca existiu, um despojo sem aproveitamento, que apenas perturba a eficiência do movimento mecânico que dá vida ( económica e financeira) ao relógio do mundo.
Faremos o "simples" exercício de nos colocarmos na pele de uma pessoa que já viveu grande parte da sua vida, e não sabe quanto do pouco ainda lhe sobra. Primeiro penetramos a carne flácida, frouxa e mole, que não responde ao comando central, pelo uso excessivo se encontra cansado. De seguida, ao mesmo tempo que fazemos um esforço superior à velocidade com que nos conseguimos deslocar, tentamos focar no mundo as pessoas que passam na rua, os carros que circulam ao som de buzinadas protestantes, tentamos absorver alguma coisa bebível, que nos dê sede de chegar a algum lado. Talvez um lugarejo calmo que nos segrede ao ouvido, que o caminho percorrido não tenha sido em vão, ou então, um local mais agitado que nos faça ainda sentir o calor do barulho no aparelho auditivo.
Pois é, chegados perto do fim de um trajecto, de um percurso, e tendo a consciência (muitos combatentes perdem mesmo antes do fim, e esmorecem-se de lucidez e têm talvez a “felicidade” de não ter de encarar um fim) de um fim inevitável mas imprevisível, o que lhes passará pelo pensamento? Já tentaram vestir o pensamento de um idoso, e alcançar onde o seu espírito pousa?
Muitas vezes, de carro, passo por pessoas com uma certa idade. Umas estão acompanhadas pelos netos ainda crianças, vindos da escola de regresso a casa (mais uma vez a figura maternal dos avós a se destacar e a ausência dos pais a ser ainda mais evidente); alguns encontram-se pontual e regularmente na tasca da zona para trocarem companhia, outros porque nunca aprenderam a conduzir ou porque lhes disseram que a invalidez tinha chegado, encontram-se à espera do autocarro, nas mesmas paragens, às mesmas horas, nos mesmos dias, talvez à procura de uma rotina antiga… Outros acompanhados pelas duas rodas de uma cadeira andante, conduzem-se para paragens onde os olhos não conseguem enxergar, memorias roubadas pelo tempo, lembranças que se confundem com o real..
Acerco-me da porta que dá acesso à cozinha, sento-me e olho para um prato vazio, e encontro a minha avó debruçada sobre a sopa, algo leve pois os medicamentos são tantos, e ouço-a a viver de novo, cada frase que experimenta, cada aventura que partilha é mais uma oportunidade de regressar para perto dos que foram seus, de percorrer caminhos em que o chão ainda lhe pertencia… e como a minha avó, muitos idosos procuram encontrar na companhia (alheia), uma tela onde projectar o filme que outrora viveram ..
Ok, neste momento devem estar a pensar o quanto sombria é a minha visão e perspectiva sobre a condição humana atingida a velhice. Não querendo induzir-vos em erro, tenho a plena consciência que, cada vez mais, as pessoas idosas têm acesso a formas de tornar a sua vida mais rica, significativa, divertida ect.. e também sei que muitas pessoas chegam ao final das suas vidas com a sensação de plenitude, e muitas delas até continuam a fazer o que faziam quando eram novas. De resto, com este “post” quis focar a outra parte, as pessoas que muito provavelmente se sentem descriminadas, ou isoladas, que demonstram-no através dos seus comportamentos de afastamento, e até mesmo aqueles que não têm a coragem de o dizer.
Não queria com este “post”, somente criticar o modo com que a sociedade perspectiva o Idoso, mais que isso, quis desabafar o que sinto sobre o assunto, e talvez apelar às pessoas que não têm muita paciência (tal como eu) para lidar com pessoas que estão na fase terminal de um percurso mas que não deixam de SER.